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Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

jamais vou dizer alguma coisa sobre a cidade que brotou da terra e deslizou em direção ao mar, crescendo verticalmente -- você sabe, aquela das montanhas. não me importo mais com as montanhas, não me importo com a cidade e não me importo com a pessoa que vive lá. je suis bien trop fatiguée, portanto obrigada e adeusinho: please stay with your own kind and i'll stay with mine.

 

gostaria de pensar apenas em abelhas. o mecanismo interno produzindo o líquido espesso e doce a partir do pólem consumido, como uma pequena máquina, complexa e úmida. não é incrível como as coisas se dão? não estou tão triste assim, acho que finalmente funciono bem: tomo fantastiquices por banalidades, e quase não é minha culpa: a repetição banaliza tudo. quando se fica muito triste com muita frequência, logo não se pode mais ficar triste. os motivos continuam os mesmos, por isso não sinto nada. vou precisar de uma catástrofe para chorar novamente.

 

mas mesmo as catástrofes já não me tocam. tenho pouca paciência, deve ser isso. concordo com tudo por preguiça, concordo com tudo o que é bom e ruim, acho tudo perfeito, perfeitamente natural, sou capaz de me adaptar a praticamente qualquer coisa, aquiesço como apenas os fracos o fazem, tanto faz, tanto faz, tudo está muito bem, só quero que me deixem em paz. não faz tanto tempo que fiquei assim, quase um ano.

 

estou completamente exausta. não quero mudar mais nada, não quero lutar contra a maré, não quero me atirar contra a parede mais uma vez.
me recuso a usar a estúpida porta que todos usam, porém.
talvez eu tente alçar vôo e sair pela janela, é uma saída muito mais atraente.
 

anouk às 03:33

Quinta-feira, 23 de Julho de 2009

E então, Antoine e Cléo caminham sob gigantes amontoados de folhas que flutuam na ponta de galhos. Ele lhe chama: Flora, querida Flora, mas Flora virá apenas um pouco mais tarde, sempre atrasada enquanto escolhe uma a uma a cor de suas pétalas.

 

Antoine parte amanhã, o barco se vai às oito; Cléo agora é eterna. Eles andam de mãos dadas pelo pátio do hospital, pisando sempre em eflúvios que se desprendem do corolário solar, uma celebração da vida em meio aos mortos. Ela veste preto, mas sorri.

 

Seus lábios não se tocam, mas nem é preciso.

anouk às 08:29

Domingo, 19 de Julho de 2009

estou aqui observando as flores que não comprei eu mesma. mais um domingo como qualquer outro; acordei, me levantei, e passei a tarde longe, somente para depois voltar e falar em francês com as paredes, oh, oui, repetindo frases que não são minhas. tu te mise avec ta pute au bout d'un mois. comme toi, je connais l'oublie. les rideaus sont verts (d'un velours très épais).

 

que mais eu poderia fazer senão falar em francês, esperar pelo sol, não sentir absolutamente nada?
o botão de meu casaco novo caiu após um dia de uso (oh, e nem foi um uso abusivo; não dancei com o casaco, não subi montanhas: fiquei sentada, saltitei um pouco, tudo dentro da normalidade), as pequenas tragédias são as piores. por exemplo: fico tão assustada com o fato de que tudo flui, que tudo se move sem me machucar nem um pouco (um dia desses acordei e decidi que nunca mais seria ofendida por qualquer coisa que fosse), que não posso mais falar. emudeci como uma cadeira. nem reclamo mais, todos os dias são pequenas esferas ainda mornas que se escondem em ostras; não preciso abri-las para saber que são belos dias -- então eles simplesmente passam enquanto observo o teto, as paredes, as coisas todas, os objetos (tão perfeitamente palpáveis!) e me despeço de mais uma tentativa.

 

adeus, querido senhor, por favor, resida para sempre em berlim. você não gosta de mim então não precisa voltar nunca mais.

 

não ouso ler nenhum livro senão le planétarium, por puro medo de magoá-lo (o livro). não estou triste e minhas cortinas nem ao menos são verdes.

anouk às 22:20